Uma coisa que me chama muito a atenção é a ideia de que obras de fantasia são, essencialmente, alegóricas.
Lembrei de cara de como, nos estudos bíblicos, em muito se tem a noção generalizante de que a bíblia também se presta a uma interpretação apenas como alegoria. E imagino que, da mesma forma que ali, se perca nesse (preconceituoso) pressuposto uma míriade sem fim de interpretações e sentidos nas obras de literatura fantástica, ficção científica, horror e afins.
Demorei, por isso, mais de 10 anos pra entender o motivo pelo qual Tolkien era tão contra a redução de sua maior obra a uma mera alegoria:
I cordially dislike allegory in all its manifestations, and always have
done so since I grew old and ware enough to detect its presence. I
much prefer history, true or feigned, with its varied applicability to
the thought and experience of readers. I think that many confuse
‘applicability’ with ‘allegory’; but the one resides in the freedom of the
reader, and the other in the purposed domination of the author.
Encontrei um livro chamado Other Worlds: The Fantasy Genre, que discute muito bem essa questão. Depois de uma definição de alegoria, como sendo “A form of extended metaphor in which objects and persons in a narrative, either in prose or verse, are equated with meanings that lie outside the narrative itself.“, se levanta a questão de que uma alegoria, pensada e escrita como uma, é criada para ser lida unicamente com as faculdades intelectuais. E, ao contrário, uma história de fantasia é para ser lida primeiramente com o coração (p.6).
Pela sua própria natureza dual e comparatica, a alegoria é quase um quebra-cabeça, e, segundo John H. Timmerman, “the story is essentially two-dimensional. The task of the reader is to establish this two-dimensional parallelism“. No que, até o momento, eu concordo. E pra contrapor essa ideia, e embasar ainda mais sua crítica contra ler o Sr. dos Aneis como uma alegoria, Tolkien explica o que é o seu livro, para ele:
“The prime motive was the desire of a tale-teller to try his hand at a really long story that would hold the attention of readers, amuse them, delight them, and at times maybe excite them or deeply move them.”
E mais adiante, o meu argumento preferido pra escapar de vez da ideia de alegoria: torna a história um mero acessório para ela, para o seu significado.
Penso que a ideia de alegoria vai de encontro a ideia de escapismo, que também permeia muito obras de fantasia. Não que não seja possível aliar – talvez seja e me escape um exemplo óbvio agora – mas o impulso de criar uma história alegórica, cujo entendimento exista na comparação com um evento da realidade que se queira fazer menção, não me parece permitir que exista o escapismo, que é justamente a fuga da realidade.
Como pode então a literatura de fantasia ser reduzida unicamente a essas duas palavras, a esses dois focos, (para mim, mais uma vez) opostos? Mais curioso é ver que, ao que tenho lido, somente nos últimos tempos é que se tem visto o valor literário das obras em si. Loucura, não?